sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Paroles...

Definitivamente eu não sou uma pessoa solar. Não que eu abomine o Sol (eu até acho belo acordar com uma manhã ensolarada e de céu azul batendo à janela), mas sou fascinada por dias nublados e frios. Um capuccino, casacos de veludo, um céu poderoso e infinitamente maior são elementos que me encantam de forma inebriante, da mesma forma que um bom Cabernet Sauvignon encanta o mais austero dos paladares.
Eu amo ir à praia. À noite. O mar torna-se infinitamente poderoso e sensorial, diferentemente de um dia ensolarado cuja areia é tomada por um sem-fim de pessoas ávidas por bronzeados e exibicionismos à revelia. Também amo tomar banho de mar de roupa. Gosto de sentir aquela sensação de segunda pele que somente uma roupa colada ao corpo pode proporcionar. Contemplar o luar, então, nem se fala... Bem, meu senso comum é completamente incomum. Quando na idade escolar, os professores já denunciavam a minha mania de querer fugir do tal senso comum a todo o custo. Talvez isso hoje seja evidente nas minhas manias, como alguns insistem em dizer. Eu, daqui do alto da meus vinte e poucos, digo que não são manias, e sim escolhas. Quando você permite à sua essência diferenciar-se das demais, presenteia-se com escolhas. E não com manias.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Feliz Ano Novo!
É com grande alegria que retorno às atividades aqui no blog. Ano novo, energias novas. Para celebrar a felicidade em 2010, uma receita especial de um velho amigo nosso. Drummond.
Abraços Fraternais,
Letícia Vaughan Häangler-Bohr.
Receita de Ano Novo
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
domingo, 20 de dezembro de 2009
Santorini
Este poema é parte integrante dos meus escritos de 2009. Trata-se de um momento de inspiração cujo cenário é a indescritível beleza da ilha de Santorini - uma das minhas paixões, desde a infância.
Santorini
Foi como num sonho.
Nossos corpos encontraram - se em meio à ventania
E o mar, bálsamo dos poetas
Molhou nossos pés nus.
As casinhas brancas ao longe pareciam observar cada palavra, cada movimento
As mãos entrelaçadas como tecido a envolver a pele
E as pernas, pequenas e suntuosas reféns
Do desejo guardado nas teias do passado
Tatuaram intensas sensações.
O vento tornou - se pungente, a descompassar os sentidos
E levou - nos ao ápice dos sentimentos
Gritos e sussurros partituraram a canção
Que há muito queríamos ouvir.
Desenhos na fria areia mais pareciam telas saídas d'alma
Impressas por cada ato, por cada dedo.
Palavras tornaram - se inúteis
Para traduzir cada gesto, cada olhar.
O relógio soa encantado
Como um menino que deixa - se levar pelo primeiro encontro
Olho para a janela e sinto o ar helênico
Tocar meus cabelos suavemente.
Vejo que não sonhei, pois os alvos lençóis denunciam
Que ali estão dois amantes
Seres unidos pelas composições do tempo
A enamorar - se sem pudor, sem limites.
Para não esquecer do meu "Eu" romântico...
Barcarola
Dama negra
Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar...
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar;
Sobre o barco dos amores,
Da vida boiando à flor,
Douram teus olhos a fronte
Do Gondoleiro do amor.
Tua voz é a cavatina
Dos palácios de Sorrento,
Quando a praia beija a vaga,
Quando a vaga beija o vento;
E como em noites de Itália,
Ama um canto o pecador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.
Teu sorriso é uma aurora,
Que o horizonte enrubesceu,
— Rosa aberta com biquinho
Das aves rubras do céu.
Nas tempestades da vida
Das rajadas no furor,
Foi-se a noite, tem auroras
O Gondoleiro do amor.
Teu seio é vaga dourada
Ao tíbio clarão da lua,
Que, ao murmúrio das volúpias,
Arqueja, palpita nua;
Como é doce, em pensamento,
Do teu colo no langor
Vogar, naufragar, perder-se
O Gondoleiro do amor!? ...
Teu amor na treva é — um astro,
No silêncio uma canção,
É brisa — nas calmarias,
É abrigo — no tufão;
Por isso eu te amo, querida,
Quer no prazer, quer na dor,...
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do Gondoleiro do amor.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
I'm Back! =D
Depois de um tempo considerável sem postar no blog, retorno ao ofício trazendo mais uma crônica do velho Rubem (Rubem Braga). Quando a melancholia (obrigada, Lê!) bate, somente um texto como os do grande capixaba são capazes de trazer uma sensação agradável, semelhante à inconfundível brisa da amada Copacabana de Rubem. Seu nome é Aula de Inglês, crônica integrante daquela coleção que deixou saudades (Para Gostar de Ler, lembra?). Bem, espero que ela (a crônica) traga essa sensação a você também.
— Is this an elephant?
Minha tendência imediata foi responder que não; mas a gente não deve se deixar levar pelo primeiro impulso. Um rápido olhar que lancei à professora bastou para ver que ela falava com seriedade, e tinha o ar de quem propõe um grave problema. Em vista disso, examinei com a maior atenção o objeto que ela me apresentava.
Não tinha nenhuma tromba visível, de onde uma pessoa leviana poderia concluir às pressas que não se tratava de um elefante. Mas se tirarmos a tromba a um elefante, nem por isso deixa ele de ser um elefante; mesmo que morra em conseqüência da brutal operação, continua a ser um elefante; continua, pois um elefante morto é, em princípio, tão elefante como qualquer outro. Refletindo nisso, lembrei-me de averiguar se aquilo tinha quatro patas, quatro grossas patas, como costumam ter os elefantes. Não tinha. Tampouco consegui descobrir o pequeno rabo que caracteriza o grande animal e que, às vezes, como já notei em um circo, ele costuma abanar com uma graça infantil.
Terminadas as minhas observações, voltei-me para a professora e disse convincentemente:
— No, it’s not!
Ela soltou um pequeno suspiro, satisfeita: a demora de minha resposta a havia deixado apreensiva. Imediatamente perguntou:
— Is it a book?
Sorri da pergunta: tenho vivido uma parte de minha vida no meio de livros, conheço livros, lido com livros, sou capaz de distinguir um livro a primeira vista no meio de quaisquer outros objetos, sejam eles garrafas, tijolos ou cerejas maduras — sejam quais forem. Aquilo não era um livro, e mesmo supondo que houvesse livros encadernados em louça, aquilo não seria um deles: não parecia de modo algum um livro. Minha resposta demorou no máximo dois segundos:
— No, it’s not!
Tive o prazer de vê-la novamente satisfeita — mas só por alguns segundos. Aquela mulher era um desses espíritos insaciáveis que estão sempre a se propor questões, e se debruçam com uma curiosidade aflita sobre a natureza das coisas.
— Is it a handkerchief?
Fiquei muito perturbado com essa pergunta. Para dizer a verdade, não sabia o que poderia ser um handkerchief; talvez fosse hipoteca… Não, hipoteca não. Por que haveria de ser hipoteca? Handkerchief! Era uma palavra sem a menor sombra de dúvida antipática; talvez fosse chefe de serviço ou relógio de pulso ou ainda, e muito provavelmente, enxaqueca. Fosse como fosse, respondi impávido:
— No, it’s not!
Minhas palavras soaram alto, com certa violência, pois me repugnava admitir que aquilo ou qualquer outra coisa nos meus arredores pudesse ser um handkerchief.
Ela então voltou a fazer uma pergunta. Desta vez, porém, a pergunta foi precedida de um certo olhar em que havia uma luz de malícia, uma espécie de insinuação, um longínquo toque de desafio. Sua voz era mais lenta que das outras vezes; não sou completamente ignorante em psicologia feminina, e antes dela abrir a boca eu já tinha a certeza de que se tratava de uma palavra decisiva.
— Is it an ash-tray?
Uma grande alegria me inundou a alma. Em primeiro lugar porque eu sei o que é um ash-tray: um ash-tray é um cinzeiro. Em segundo lugar porque, fitando o objeto que ela me apresentava, notei uma extraordinária semelhança entre ele e um ash-tray. Era um objeto de louça de forma oval, com cerca de 13 centímetros de comprimento.
As bordas eram da altura aproximada de um centímetro, e nelas havia reentrâncias curvas — duas ou três — na parte superior. Na depressão central, uma espécie de bacia delimitada por essas bordas, havia um pequeno pedaço de cigarro fumado (uma bagana) e, aqui e ali, cinzas esparsas, além de um palito de fósforos já riscado. Respondi:
— Yes!
O que sucedeu então foi indescritível. A boa senhora teve o rosto completamente iluminado por onda de alegria; os olhos brilhavam — vitória! vitória! — e um largo sorriso desabrochou rapidamente nos lábios havia pouco franzidos pela meditação triste e inquieta. Ergueu-se um pouco da cadeira e não se pôde impedir de estender o braço e me bater no ombro, ao mesmo tempo que exclamava, muito excitada:
— Very well! Very well!
Sou um homem de natural tímido, e ainda mais no lidar com mulheres. A efusão com que ela festejava minha vitória me perturbou; tive um susto, senti vergonha e muito orgulho.
Retirei-me imensamente satisfeito daquela primeira aula; andei na rua com passo firme e ao ver, na vitrine de uma loja,alguns belos cachimbos ingleses, tive mesmo a tentação de comprar um. Certamente teria entabulado uma longa conversação com o embaixador britânico, se o encontrasse naquele momento. Eu tiraria o cachimbo da boca e lhe diria:
— It’s not an ash-tray!
E ele na certa ficaria muito satisfeito por ver que eu sabia falar inglês, pois deve ser sempre agradável a um embaixador ver que sua língua natal começa a ser versada pelas pessoas de boa-fé do país junto a cujo governo é acreditado.
Rubem Braga
